“A fé cantada servia para aprofundar a capacidade de resistência dos escravos.”
Esta é uma das frases que carrego da última obra que estou a ler. Não é só uma “memória histórica marcante”, mas também um testemunho do poder da música na vida espiritual, especialmente em contextos de dor, opressão e esperança (neste preciso contexto).
Há quem pense que o género musical “Espiritual Negro” é uma forma de submissão da condição social dos negros, mas há uma outra perspetiva, para mim válida e que vai ao encontro da verdade onde me encontro firmada, da esperança, pela fé, na justiça de Deus.
Este vaguear levou-me a refletir sobre a importância da letra da música nos momentos de adoração, com base exclusivamente nas Escrituras, que valoriza a centralidade da Palavra, a liberdade de consciência e a adoração congregacional consciente.
Sempre que escrevo, faço-o para mim, “Conditio sine qua non”. É o meu ponto de partida com o foco burilante.
A adoração é um ato em espírito e em verdade.
O apóstolo João (4:23 e 24), inspirado por Deus, diz:
²³ Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque o Pai procura a tais que assim o adorem.
²⁴ Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.
A inerrância da Palavra leva-me à verdade do conceito de adoração. A adoração que agrada a Deus é autêntica (espírito) e alicerçada na verdade (a Sua Palavra). Portanto, a letra da música tem de refletir a verdade bíblica, ou seja, exaltar o caráter de Deus e a obra de Cristo. O EU não entra na equação.
Recordo a escrita de Paulo divinamente inspirada na sua carta ao irmãos santos fiéis em Colossos (3:16):
¹⁶ A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais; cantando ao Senhor com graça em vosso coração.
O nosso irmão evidencia que a música é um instrumento pedagógico, ou seja, é uma forma de ensino (doutrina cantada), logo a letra tem de estar plena da Palavra de Deus. O EU não entra na equação.
A música tem uma dupla dimensão agregadora, a saber: horizontal (exortação mútua) e vertical (adoração a Deus). O Eu não entra na equação.
Cantar é adorar a Deus. O Eu não entra na equação.
Cantar não é apenas um momento emocional – é colocar a sã doutrina em melodia. Cantar é um ato de educar o coração da igreja, de fortalecer a fé e corrigir o desvio à Palavra. O Eu não entra na equação.
No livro poético de Salmos, o rei Davi (105:2) ensina que o nosso cantar deve contar os feitos de Deus, no passado e no presente. E aqui compreendo a frase que deu mote à escrita – para os escravos, para qualquer povo oprimido, a fé cantada ajuda a manter a esperança escatológica viva, também em contextos de sofrimento.
2 Cantai-lhe, cantai-lhe salmos; falai de todas as suas maravilhas
Então, a música que canto deve contar a boa nova do evangelho, deve proclamar a cruz e deve celebrar a ressurreição. O Eu não entra na equação.
A música soou na prisão com o dueto de Paulo e Silas. Imagino que outros presos e guardas trauteavam a Palavra. Não carpiam as dores, mas alegravam-se no Senhor. Lucas relata o testemunho dos nossos irmãos.
²⁵ Perto da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam. (Atos 16)
A música foi uma arma espiritual de convicção e de adoração. Tenho a certeza de que a letra proclamava a soberania de Deus e a certeza do consolo que vem d´Ele. O Eu não entra na adoração.
Então, a música que canto tem de revelar o meu conhecimento acerca de Deus. E , neste contexto, somente aqui, o meu Eu tem de entrar na equação.



